
Por Santiago López petit http://jornadaslibertinas.blogspot.com/
(trad. nómadas queer)
1) A pós-modernidade é a nossa época, nela pensamos e (mal) vivemos. A pós-modernidade radicaliza as lógicas e as aporias da modernidade. Em particular, o sujeito converte-se em engranagem do sistema e em funçom de ordem. Mas se a modernidade era umha mediaçom que nom lograva mediar-se a si própria, a pós-modernidade gira ainda mais no vazio, sem capacidade algumha de autojustificar-se.
2) Na pós-modernidade a realidade coincide com o capitalismo. Isso significa que todas as categorias espaciais da modernidade (dentro/fora, paz/guerra, ordem/desordem...) saltarom polo ar. Estamos ante um continuum indiscernível no que se mesclam interioridade e exterioridade, guerra e paz, ordem e desordem. Nom existe a cojuntura. A cojuntura tém de ser arrincada à realidade mesma. A nossa aposta é que a luita que quer vencer a precariedade pode fazé-lo.
3) A categoria que permite dar conta, em última instáncia, de todos os fenomenos produzidos na pós-modernidade é a de mobilizaçom. Todas e cada umha de nós estamos mobilizadas. Certamente, a exploraçom capitalista faz parte de dita mobilizaçom, mas a mobilizaçom em tanto que é umha "política da relaçom" significa muito mais. A nossa própria existência é essa mobilizaçom da vida. Mobilizamo-nos para (re) produzir esta realidade óbvia que nos cai acima, quando trabalhamos, quando nom trabalhamos, quando nos procuramos a nós próprias, quando construimos projectos... de esta maneira, a política atopa hoje a vida.
4) Tomar o conceito de biopoder para descrever essa entrada da vida na política, como umha "posta a trabalhar das nossas vidas" é mui insuficiente. Tal como se vem utilizando o conceito de biopoder todas as propostas permanecem dentro da crítica da economia política. O biopoder é umha extrapolaçom da exploraçom capitalista que tem necessariamente duas conseqüências: 1) Nom sai da centralidade do trabalho. 2) As relaçons de poder, em último termo, deducem-se das relaçons de produçom. Por todo isto a política que se desprende de estes análises nom implica nengumha mudança inovadora à altura do nosso tempo. Simplesmente substituem-se umhas denominaçons por outras. Por exemplo, no lugar de classe trabalhadora fala-se de multidom, mas para nada submete-se a crítica à mesma noçom de sujeito político e à ideia de política que determina.
5) A mobilizaçom global da(s) vida(s) cria, como dizíamos, umha realidade na que se confundem guerra e paz, ordem e desordem... Esta nova territorialidade tem simultaneamente a forma de espaço fronteiriço e de supermercado. No espaço fronteiriço o límite fizo-se virtual. Hai infinitas fronteiras e também nengumha. Espaço de controlo absoluto no que o que es vem determinado polas fronteiras que che é permitido superar. Espaço fronteiriço que também é supermercado onde escolher livremente. Es a marca que podes comprar. A mobilizaçom global produz um território aparentemente pacificado no que a catástrofe é-lhe imanente/iminente.
6) As unidades de mobilizaçom de esta mobilizaçom global som os indivíduos. Os indivíduos, quer dizer, cada umha de nós em tanto que centro de relaçons. Indivíduo é aquel que pom o "eu vivo" como centro que articula as diversas identidades contingentes: trabalhador, consumidor, cidadám... A novidade que comporta a mobilizaçom global reside em que te sujeita, quando te abandona, e ao revês, abandona-te quando te sujeita. Esta fragilizaçom paradóxica inerente a esta política da relaçom constitui o ser precário.
7) A mobilizaçom global produz umha individuaçom que nom é normativa, ainda que evidentemente, a normalizaçom segue a funcionar como umha espécie de infrapenalidade. A normalizaçom produz indivíduos normalizados mas nom ilhados, já que consistia na autoreflexom de um grupo em relaçom a umha norma. De outra maneira, a individuaçom efeito da mobilizaçom globalizadora produz indivíduos singulares no seu radical ilhamento. Precariedade significa estar só frente à realidade.
8) Por esta raçom a precariedade nom é algo que nos passa, e que pode deixar de passar-nos. A precariedade nom é algo acidental, mas um carácter verdadeiramente esencial do ser que nesta sociedade podemos ser. A precariedade fragiliza o nosso mesmo querer viver, e na medida que o faz, encerra-nos. Em outras palavras: além da dualidade inclusom/exclusom que a mobilizaçom impom existe umha mesma fragilizaçom do querer viver efectuada polo medo. A sociedade pós-moderna é umha sociedade do medo e da esperança. Os dous modos de controlo sobre o querer viver.
9) Se a qüestom da precariedade nom é tanto estar sujeitos à exclusom/inclusom, como esta fragilizaçom que se produz nos dous casos, e que nos congela as mesmas ganhas de viver, que nos ataca no mais fundo e converte-nos em carne de psiquiatra, entom está claro que a própria vida converteu-se no campo de batalha. Que a vida é hoje o campo de batalha significa que a vida luita contra a vida (o outro) e também contra a morte (paro). Dito de outra maneira: quando a vida é o campo de batalha o poder funciona e impom-se-nos como o código de "ter dinheiro/nom-ter dinheiro". Este código organiza a vida e, fazendo-o, precariza as nossas vidas. O objectivo deve ser cortocircuitar este código. O dinheiro grátis foi umha tentativa.
10) A consigna que durante tantos anos fora válida, aquela que unia Marx e Rimbaud, "Transformar a sociedade e mudar a vida", tem hoje de ser repensada completamente. Quando o que se joga é a nossa própria existência, porque a mobilizaçom efectua umha guerra contra todas nós, a vida já nom aparece como a soluçom, mas converte-se no problema mesmo. Quando a vida é o verdadeiro campo de batalha ja nom é suficiente com criticar a vida cotiá, nem com pretendermos intensificar a vida. Enfrentar-se à vida como o nosso problema supom encarar -sem preparar um caminho de retorno- o que é o ser precário.
11) para entendermos como funciona o ser precário deve-se ter em conta que, se bem a precariedade é social, a precariedade como tal vive-se individualmente. Esta afirmaçom é clave já que em ela condensa-se toda a potência, e também toda a debilidade de umha luita que tome a precariedade como objectivo a atacar. A precariedade, através do medo e da esperança, configura-nos no que somos, quer dizer, como ser precário. Falar de precariado em tanto que sujeito colectivo nom é mais que pretender impór artificialmente um horizonte constitutivo a algo que, na sua esência, é individual e paradóxico.
12) Se o ser precário tem esse carácter paradóxico, social e à vez individual, é evidente que as formas tradicionais de política nom servem. Com isto queremos dizer que umha política de luita contra a precariedade deve ser completamente reinventada. Entre outras coisas, porque a politizaçom já nom passa pola consciência de classe. A consciência de classe permitia alcanzar o universal desde o autoconhecimento concreto da exploraçom. Por contra, a politizaçom do ser precário deixa-nos na intempérie, e aboca-nos a ter que criar -ter que criar a partir de nós próprias- a aliança de amigas que nom existe.
13) No fundo, umha política que queira atacar a precariedade tem de ser umha política do querer viver. Isto significa que dita política, porque se enfronta ao ser precário como este paradoxo que temos descrito, deverá aunar dous componentes: o ódio e a transversalidade.
a) O ódio à vida como prova. Temos de reapropriar-nos do ódio. O precário tem de odiar a sua vida, tem de ser capaz de erguer umha demarcaçom entre o que quer viver e o que nom está disposto a viver. Este ódio livre é a potência de vaziamento do seu ser precário.
b) A transversalidade como estratégia. Esta nova política tem de ser completamente transversal. Transversalidade significa que nom hai umha frente de luita privilegiada (por exemplo: o trabalho), mas que o combate dirige-se contra a própria realidade entendida como um continuum de frentes de luita. Evidentemente, esta transversalidade supom também o rechaço a ocupar umha determinada identidade. Luitar contra a precariedade é atravessar todas as frentes de luita sem se acobilhar em identidade algumha que, polo demais, sempre seria imposta. Como os woblies americanos organizaram-se atravessando as distintas divisons étnicas, técnicas, de género... a precária que luita de esta maneira é capaz de desokupar a ordem e abrir umha terra de ninguém. A(s) terra(s) de ninguém cravadas no espaço fronteiriço som os lugares onde reponher-se para volver atacar o código do poder.
14) o ódio à vida e a transversalidade som as armas que expulsam o medo e a esperança. Som elas as que socavam o ser precário e ponhem-nos além do ilhamento de cada umha. Assim aniquila-se o que nos divide, e entom descobrimos que posuimos umha interioridade comum. Os que luitamos contra a realidade posuimos umha interioridade comum. A interioridade comum é o querer viver em tanto que espaciamento.
14) Umha política contra a precariedade que faz da vida um campo de batalha, umha política do querer viver terá sempre de manter estas duas dimensons (pessoal e colectiva) permanentemente unidas. Por isso hai que pensá-lo todo de novo. Que supom politizar-se hoje de novo? Que é umha aliança de amigas? Como encher a terra de ninguém com o nosso malestar? Como fazer do querer viver um desafio? Só seremos capaces de responder a estas perguntas que nos interpelam se fazemos efectivamente da vida o nosso campo de experimentaçom.